Família de Engenho: a admirável história da Cachaça Matuta

Com um pé na tradição familiar e outro na tecnologia, a Cachaça Matuta se estruturou em bases sólidas e hoje é uma das maiores empresas de cachaça do Brasil.

Por Maurício Carneiro

Das portas do seu engenho, o Senhor Aurélio Leal Freire já viu passar centenas de comboios de tropeiros que iam ao Vaca Brava comprar aguardente. Assim como seu Aurélio, várias gerações da família acompanharam, por mais de 150 anos, o caminhar preguiçoso e determinado das mulas com suas ancoretas, tocadas pelos “matutos”.

“Matutos” era o nome dado aos tropeiros que compravam cachaça nos engenhos e a revendiam pelos interiores da Paraíba e estados vizinhos. Esses personagens, habitantes frequentes da obra de José Lins do Rego, tornaram-se imprescindíveis para a disseminação da cultura da cachaça entre o povo paraibano. Foram, até o último quarto do século XX, figuras comuns pelas estradas de terra batida dos sertões. Tinham como ofício comprar e vender cachaça, conduzindo suas mulas por engenhos e cidades interioranas.

Sala de Destilação da Cachaçaria Matuta. Foto: Maurício Carneiro

O engenho Vaca Brava foi tocado pelo Senhor Aurélio até o começo deste século, quando a direção do negócio foi passada para a geração seguinte. Menino de engenho tardio, Aurélio Leal Freire Júnior (ou simplesmente Júnior, como gosta de ser chamado) viveu boa parte da infância na “bagaceira” do engenho. O ambiente era bem similar aos descritos nas obras Fogo Morto, Menino de Engenho ou Banguê . Muito da memória afetiva que ele guarda dessa época está impregnada com o doce cheiro da cana, do barulho das moendas, da visão das montanhas brancas de bagaço e das tropas de mulas carregando as ancoretas de cachaça.

Trabalho e foco

Representante da quinta geração de uma família de produtores de aguardente, Aurélio Júnior comanda hoje uma das maiores empresas do Brasil no negócio da cachaça. A Cachaçaria Matuta está situada na Fazenda Engenho Vaca Brava, área rural da cidade de Areia – PB.

O destilado jorrando dos alambiques. Foto: Maurício Carneiro

Mas nada foi fácil ou gratuito. Comerciante em Campina Grande,  Júnior Leal foi chamado a assumir o engenho no início dos anos 2000. Deixou o comércio para se dedicar, exclusivamente, ao negócio da família. Trabalhou duro na recuperação e melhoria da infraestrutura, do maquinário da empresa e na qualidade da cachaça. Em paralelo, legalizou o produto, antes  vendido a granel e sem registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Júnior conta que precisava de uma marca, para dar nome à sua cachaça. Assim, lançou a Cachaça Matuta Cristal em 2003. O nome foi uma homenagem aos matutos aguardenteiros, que tanto ajudaram a propagar a qualidade e a fama do produto do Vaca Brava.

A grandiosidade dos pequenos detalhes

Indagado sobre as dificuldades do início, o empresário diz que encontrou o engenho em estado delicado, tanto nas contas quanto na estrutura física. “Nasci no ramo e gosto do negócio da cachaça. Asseguro que não existe situação financeira difícil que não se resolva com trabalho árduo, focado e consistente. Se a pessoa tem disposição para trabalhar de 18 a 20 horas por dia, ela consegue se sair bem. E foi assim que fiz”, revela, orgulhoso.

Outro ponto de satisfação é o fato de nunca ter necessitado de injeção de capital externo, seja de sócios, seja de bancos. “Tudo o que temos foi conquistado com recursos próprios. A gente passa a dar mais valor àquilo que foi fruto do nosso suor. Se vejo um vazamento, um desperdício ou alguma coisa errada, eu, de imediato, chamo alguém pra consertar. As coisas grandes são feitas nos pequenos detalhes”, conclui.

Inovação e ousadia

Com tino comercial apurado, Júnior percebeu que o mercado era carente de uma cachaça de qualidade, mas embalada de modo simples e prático. Assim, lançou em 2013 a Matuta Cristal em latinha de 270 ml. Esta foi a primeira cachaça de alambique em latinha do Brasil, vindo em seguida a Matuta Umburana e cachaça Mata Limpa (da mesma cachaçaria), também em lata. A iniciativa deu tão certo que, de acordo com o empresário, as latinhas são hoje o carro-chefe de vendas da empresa.

Estoque de embalagens da Matuta: Foto: Maurício Carneiro

“Se eu fosse pelo conselho dos outros, minha ideia teria ficado só na vontade. Ninguém acreditou que cachaça de alambique em latinha daria certo. Ainda bem que além de produtor eu também sou consumidor e sei entender o que um bom bebedor de cachaça gosta”, destaca.

Sempre atenta aos detalhes e usando a inovação para se manter à frente da concorrência, a Matuta investe continuamente em tecnologia, sustentabilidade e meios para melhorar sua qualidade e produtividade.

Foi com essas premissas que, dentre outros projetos, construiu-se o parque energético fotovoltaico, utilizando a energia solar. Investiu-se em melhorias no processo de extração do caldo da cana-de-açúcar, para aumentar a produtividade das moendas, e foi criada a tecnologia do “spray ball” que é um mecanismo interno, instalado nos alambiques, que permite a lavagem das panelas por jato de vapor d’água após cada alambicada. “O que era feito uma vez a cada semana, com essa tecnologia, podemos fazer várias vezes ao dia, melhorando a pureza e a qualidade do destilado”, explica Júnior.

Planos de curto e médio prazo

Atualmente a Matuta é vendida em todo o Nordeste, além de São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás. Seus pontos de venda são os bares, restaurantes, lojas especializadas, supermercados e grandes redes varejistas nacionais. O próximo passo é a exportação, além da consolidação no mercado nacional. A meta da empresa é ter, em 2021, cerca de 25% de sua produção exportada para os Estados Unidos, China e Alemanha.
Segundo Júnior, a ideia é fazer com que a cachaça seja consumida lá fora, não apenas como base das caipirinhas, mas que se aproveite e se reconheça todo o potencial sensorial que a bebida possui, particularmente pelo fato de poder ser envelhecida em tantas madeiras diferentes.

Área de envelhecimento da Matuta. Foto: Maurício Carneiro

A área de maturação das cachaças é algo impressionante. São 30 tonéis de 30 mil litros cada, que envelhecem cachaças em seis tipos de madeiras diferentes: amburana, bálsamo, jequitibá, ipê, castanheira e jaqueira.

Conforme relata o empresário, a perspectiva é que, agora em março, sejam lançados três blends dessas madeiras. As embalagens serão exclusivas, de 300 ml e de um litro. As tampas serão cápsulas de alumínio e estão sendo importadas da China e da Itália.

Alma de matuto

Dono de um temperamento simples e afável, Júnior trata os amigos da mesma maneira, seja comendo fava com cachaça nos bares e botecos de Areia, seja no belo escritório que possui no engenho. Com instalações amplas, sua área de trabalho é confortável, com mobiliário bem cuidado. Para os que não o conhecem, ao serem recebidos em seu escritório, o único item que entrega o matuto que há nele é uma rede simples, armada ao lado da mesa de trabalho e que se estende por toda a sala. “Quando a coisa tá pegada, na época da moagem, e eu preciso ficar aqui até mais tarde, é nessa rede que descanso”, declara em meio a risos.

Aurélio Júnior, em seu escritório. Foto: Maurício Carneiro

O empresário tem uma frase que é bem característica sua: “Faço cachaça para eu beber; só vendo o que sobra”. É assim que ele conceitua a sua produção. A frase espirituosa guarda algumas verdades: “Eu preparo minha cachaça como se fosse para mim mesmo, produzo com todo carinho e cuidado e nunca colocaria no mercado um produto que eu mesmo não gostasse de beber. Além disso, o melhor controle de qualidade seu eu quem faz, no copo e na guela”, arremata.

Números admiráveis

Para a sorte de milhares de apaixonados pela Matuta, ou “matuteiros”, Júnior não consegue beber tudo o que produz. Felizmente sobram alguns litros e essa sobra é coisa digna de grandes números.
A capacidade de estoque do engenho Vaca Brava era de 2,5 milhões de litros. Em 2019 houve uma expansão e foram instaladas mais seis dornas de inox de 70 mil litros cada e outros barris de madeira com capacidade de armazenar mais 930 mil litros nas áreas de envelhecimento. A soma total, em 2020, chega a 3,85 milhões de litros em estoque.

Área de expansão do estoque da Matuta. Foto: Maurício Carneiro

Os números da produção da Matuta também são grandiosos. “Fechamos a safra 2019/2020 com 3,070 milhões de litros produzidos”, contabiliza. Esses números são impensáveis para o negócio da cachaça de alambique fora da Paraíba. As vendas são tão expressivas que a Matuta figurou em 2019 entre as 100 empresas que mais pagaram ICMS no Estado. Só mesmo por essas bandas uma empresa de produção de cachaça consegue tal feito. O motivo: a Paraíba é um dos estados que mais produzem e consomem cachaça de alambique do Brasil.

O grande diferencial

Muitos podem imaginar como sendo de um único autor o feito até aqui relatado. Mas o fato é que todos os pequenos detalhes que fizeram a grandiosidade da Matuta estão embasados num fator primordial: a família. Sem esse diferencial, nada teria existido.

Na direção geral da empresa, Júnior é ladeado por sua esposa, Germana Freire, que o apóia nas questões administrativas e financeiras. Os dois filhos do casal, Breno e Gustavo Leal, fazem o suporte nos assuntos comerciais e de produção. As decisões estratégicas, investimentos e posicionamento de mercado são tomadas com o aval de toda família: o grande “conselho diretor”. Isso tudo sob o olhar cuidadoso e orientador do patriarca do início de nossa história.

Detalhe da residência do patriarca. Foto: Regina Lima

Das janelas azuis da sua casa, o Senhor Aurélio Leal Freire — o mais antigo e importante morador do Engenho Vaca Brava — ainda contempla a produção que sai do engenho. Agora, não mais por matutos, mulas e ancoretas, mas por motoristas, caminhões e garrafas, que escoam a Matuta para copos e drinques de milhões de pessoas, Brasil afora. Quase tudo mudou ao longo dos seus 90 anos de vida, mas não a certeza de que o trabalho e a força da família conseguem reverter qualquer situação adversa e transformar um pequeno engenho, quase de fogo morto, numa das maiores empresas de cachaça do Brasil e orgulho de muitos paraibanos.

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